quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Uma salada mista de religiões

No primeiro dia em que cheguei, o meu taxista perguntou-me qual era a minha religião e eu, como não sabia qual era a religião dele, para não ferir susceptibilidades disse que não era religiosa - e no fundo, apesar de ter tido uma educação católica penso que não menti. É engraçado porque no meio desta misturada de hindus (80%), muçulmanos (13%), cristãos (2%), sikhs(2%), budistas (1,5%), alguns judeus, e tantas outras religiões, o facto de se ser ateu é uma aberração! Ele preferia que eu venerasse um Deus com cara de elefante ou com seis braços, que acreditasse na reencarnação ou no paraíso, ou que andasse de burka ou de terço ao pescoço... mas nada?! Custa-lhes a entender... De facto apenas 0,07% da população indiana não é religiosa e isso é uma característica que confere a este povo uma espiritualidade única.

Regra geral são muito tolerantes - exceptuando o conflito constante entre o nacionalismo hindu e o fundamentalismo islâmico - e religiões diferentes convivem na rua, no trabalho e na escola em harmonia. No entanto, mantêm-se socialmente separados, e os casamentos entre crenças diferentes são geralmente inconcebíveis.

São notórias as diferenças entre as mulheres hindus e as muçulmanas. As primeiras são femininas e gostam de se arranjar. Põem flores frescas no cabelo, usam colares dourados, anéis brilhantes, pulseiras, pintam os olhos, arranjam as sobrancelhas e vestem-se de todas as cores, muitas vezes com a barriga á mostra por baixo do sari. As muçulmanas fundamentalistas são o oposto, completamente tapadas só com a cara de fora, sempre em tons escuros, com buço e sem nenhuma maquilhagem. Mas podem ir sentadas uma ao lado da outra no autocarro sem gerar conflictos, ambas convictas da sua religião, sem sequer se questionarem se o Deus (ou deuses) da vizinha será mais real que o seu. Ou se sequer algum deles existirá de facto!

No fundo, a essência do hinduísmo assenta sobre os pensamentos de Rig Veda o qual defendia a tolerância das outras religiões, sem nunca fomentar a imposição de uma religião sobre outra (ao contrário das missões de cristianização ou da guerra santa islâmica):

Sânscrito: एकम् सत् विप्रा: बहुदा वदन्ति
Transliteração: ekam sat vipraaha bahudaa vadanti
Português: "A verdade é única, embora os sábios a conheçam como muitas."
(Livro I, Hino CLXIV, Verso 46)

No meio de tantos templos e de tantos rituais, penso que no fundo a religião, seja ela qual for, é o motor que os faz viver, que os faz sorrir no meio da desgraça, que os faz recomeçar quando perdem tudo, que lhes dá a esperança da recompensa depois do sofrimento, do desespero e do sacrifício, e que os faz manter-se moralmente correctos face a tentações maléficas. Penso que sem isso talvez eles não soubessem sobreviver...

Também dá vontade de ser religioso... o problema é escolher.. pois todas têm os seus prós... mas também têm os seus contras...